Vamos voltar para o ano de 2000. Isso mesmo, 16 anos atrás. A temporada ficava marcada não pelo um vergonhoso recorde de 5-11, e sim pela aposentadoria de um tal de Troy Aikman — se não o conhece, clique aqui.

Depois que Aikman se aposentou, o Dallas Cowboys foi atrás de vários substitutos. Tentou Quincy Carter, selecionado na segunda rodada do Draft de 2001, mas sem sucesso. Tentou um ex-jogador de beisebol sem muito sucesso, Chad Hutchinson, que também foi um fracasso. Tentou jogadores bizarros como Ryan Leaf, um dos maiores busts da história da NFL, ou Drew Henson, outro jogador que foi pra NFL depois de não dar certo na MLB.

Em 2004, um problema com drogas fez Quincy Carter ser cortado do time, abrindo uma vaga para um desconhecido quarterback ocupar a posição de segundo reserva. Depois de duas temporadas fora dos playoffs, esse segundo reserva assumiu a titularidade no intervalo do jogo da Semana 7 de 2006 e, desde então, não largou mais o osso.

Esse segundo reserva era Tony Romo. Vindo de uma universidade pequena, a chance de Romo não ter dado certo era tão grande quanto o ego do Jerry Jones. Por uma sorte do destino, Romo aproveitou a oportunidade e se tornou titular absoluto do time.

Em 2016, Tony Romo é o melhor quarterback da história do Dallas Cowboys em números, mas vê uma sombra o perseguindo agora. Uma sombra chamada Dak Prescott.

Foi em 2006 quando Tony Romo mostrou a NFL o que ele é capaz
Foi em 2006 quando Tony Romo mostrou a NFL o que ele é capaz

Depois de anos e mais anos com reservas que não davam conta do recado ou ao menos não davam boa perspectiva para o futuro, o Cowboys parece ter achado uma joia na quarta rodada. Em quatro partidas, Dak Prescott liderou o time para três vitórias, incluindo uma contra o histórico rival Washington Redskins fora de casa. Para contribuir para a situação, o corpo de Tony Romo está longe do ideal, o que deixa dúvidas se ele conseguirá se manter saudável daqui em diante.

Mas, acredite se quiser, a titularidade não está em discussão alguma.

Tony Romo é capitão do time e tem reconhecimento por todos da equipe, incluindo comissão técnica e os dirigentes. Talvez o desastroso 2015 tenha apagado da memória de parte dos torcedores sobre a qualidade que Romo traz ao time. Por mais que Dak Prescott tenha se mostrado uma boa surpresa e uma esperança para conduzir a franquia depois que Romo se aposente, hoje não há discussão.

Tony Romo é o titular do Dallas Cowboys.

Por mais que as vitórias sejam ótimas para o time, elas também acabam mascarando algumas coisas. E entre elas estão os problemas do Dak Prescott.

Antes de tudo, a comissão técnica teve que adaptar o playbook para Dak Prescott jogar. Vindo de uma carreira universitária com um estilo de ataque bem diferente do usado profissionalmente, Jason Garrett não poderia entregar o livro de jogadas tão complexo quanto o usado por Tony Romo pelo simples motivo dos problemas que Dak ainda tem em formações que ele recebe o snap junto ao center (o famoso under center). E isso se reflete no alto número de jogadas com formação shotgun, justamente pelo fato de Dak ainda não ter domínio em leitura de jogadas em formações under center — que, por sinal, o Tony Romo leva muita vantagem.

Continuando, o Dak Prescott ainda tem problemas com passes mais longos. Apesar de arriscar algumas vezes, é nítido ver como o ataque do Dallas Cowboys rende por meio de corridas com Ezekiel Elliott e passes mais curtos. Não é por acaso que Cole Beasley lidera o time em jardas. Com Tony Romo em campo, já é possível ver mais passes de 15 ou mais jardas sendo tentados e acertados, justamente pela precisão maior que Tony Romo tem hoje. Reveja o touchdown de Terrance Williams abaixo. Olhe como o passe não foi bom e T-Will precisa voltar para receber a bola e anotar o TD. A jogada funcionou? Sim. Mas e se fosse um cornerback mais experiente na jogada? Ela teria o mesmo sucesso?

 

Ainda, é possível ver problemas em leitura de jogadas com Dak Prescott. Com muito mais tempo de experiência na liga, você vê o domínio que Tony Romo possui na hora de ler a defesa e chamar a jogada. Você já viu que com Romo o Dallas Cowboys sempre faz ajustes no ataque e acaba fazendo o snap no limite do estouro do relógio? Isso se dá muito por conta da leitura e dos ajustes que Tony Romo faz e que Dak (ainda) não faz.

Vale ainda ressaltar o desempenho do Dallas Cowboys em situações específicas, como na redzone. Apesar de mostrar evolução, Prescott ainda tem problemas em conseguir sair da redzone com os 7 pontos do TD. Isso acontece por conta do espaço reduzido que a redzone dá ao QB adversário, e Dak tem mostrado que isso ainda é um problema. No jogo contra o Giants, foram os field goals curtos que acabaram prejudicando o time e, no fim, deram a derrota. Ainda nesse jogo, vimos que Dak não conduziu de forma perfeita a campanha para o field goal da vitória. Bem, vocês lembram do que Romo fez no ano passado contra o mesmo Giants em casa, né?

Por fim, essa dicussão nunca esteve presente em Dallas. Jerry Jones já cansou de reforçar que Tony Romo é o titular do time, assim como Stephen Jones, vice-presidente executivo do Cowboys, Jason Garrett e até o próprio Dak Prescott. “Esse é o time de Tony Romo. Eu disse isso no momento em que fui nomeado titular e quando ele se lesionou”, disse Prescott.

O Dak pode virar o titular? Aí já estamos entrando em outro ponto de discussão e posso afirmar que sim, há chances. Antes de mais nada, podemos ver que a qualidade que Prescott trouxe ao time permitiu ao Cowboys ser mais paciente com a recuperação de Romo. Em 2015, o mau desempenho dos reservas acabaram forçando um retorno de Tony Romo antes da hora, o que deu em uma nova lesão.

Se o argumento para que Tony Romo não volte a ser titular do time seja baseado em “ele é amarelão”, “lanca interceptações demais” e derivados disso, eu sugiro fortemente que você leia esse texto. Se você acredita em um futuro melhor para o Dallas Cowboys com Dak Prescott, eu concordo plenamente com você. Mas hoje, Tony Romo é o titular do time. Indiscutível. 

Gabriel Plat

Editor-Chefe em Blue Star Brasil
Curte NFL por escolha e o Dallas Cowboys por amor. Aprecia a boa música e compartilha outro sofrimento: o Botafogo. Um dos participantes do podcast.