De todos os períodos do ano da NFL, acho que a offseason é o mais divertido deles. Com exceção das semanas envolvendo o Draft e a Free Agency, a intertemporada é um deserto de completo tédio e falta de notícias para todos os times da NFL. E é nesse momento que algumas especulações no mínimo inusitadas começam a aparecer para dar um “ritmo” aos portais dedicados ao futebol americano.

Como o Dallas Cowboys infelizmente já foi eliminado, esse período já começou para o Time da América. Não demorou muito para a poeira do jogo de domingo abaixar que as especulações começaram a aparecer.

Cris Carter, ex-wide receiver e atual membro do Hall da Fama do futebol americano, falou em um programa de televisão que “tentaria forçar uma troca (entre Tony Romo) por J.J. Watt”. Sim, isso mesmo.

Você provavelmente está rindo agora com essa possibilidade. Como o Houston Texans seria estúpido o suficiente para fazer uma troca dessas, não é verdade?

Bom, de fato sim. Mas há alguns fatores que precisam ser considerados.

O Houston Texans é um ótimo time. A defesa é (no mínimo) acima da média em todos os setores, enquanto o ataque é muito bem balanceado: linha ofensiva boa, jogo terrestre muito bom, recebedores ótimos. Você já deve saber que o problema do time é apenas um: o quarterback.

O sonho do time em ter aquele QB que vai carregar a franquia nas costas por anos e anos ruiu com a temporada péssima de Brock Osweiler. Seus números ridículos forçaram o técnico Bill O’Brien a colocá-lo no banco para um quarterback que nunca havia sido titular em toda a carreira profissional. Esse é o nível de confiança que Houston tem em seu QB hoje.

Com Jadeveon Clowney jogando fora qualquer rótulo de bust e tendo uma campanha ótima, o pass rush do Texans acabou sentindo menos falta do J.J. Watt que o esperado — não que ele não faça falta, hein, por favor. Somando isso ao fato das seguidas lesões de Watt, que acabou fazendo com que o jogador cogitasse até a aposentadoria, não é tão absurdo assim pensar que Houston acharia que o ganho que ele terá substituindo Osweiler por Romo será maior do que a perda que o time teria substituindo Watt por alguma peça já do elenco ou buscando reforço no Draft — que conta com uma bela classe de edge rusher, por sinal.

E olhando pelo lado de Dallas, é mais do que óbvio ver que a troca seria excelente. Apesar de alguns rumores de que Tony Romo possa voltar a ser titular, o mais provável é que Dak Prescott seja o titular daqui em diante. Ou seja: o valor de Romo para o time titular, caso nada aconteca com Dak, é zero. Com um salário de mais de 20 milhões por ano, Romo tem um peso enorme para o salary cap do Dallas Cowboys para ter uma utilidade nula no time titular. Partindo da mesma análise que fizemos acima, o ganho do Cowboys colocando J.J. Watt como titular no lugar de DeMarcus Lawrence ou Tyrone Crawford é infinitamente superior a perda que o time teria ao perder o Romo. Por mais que os últimos anos tenham nos mostrado que um reserva de confiança é necessário, o Cowboys pode conseguir isso sem pagar um salário astronômico para o Tony Romo.

Focando um pouco mais pro lado do salary cap, a troca também seria viável para as duas equipes. Houston Texans tem US$24 milhões de sobra. Contando que o time opte por não renovar com A.J. Bouye, que tem um valor estimado de 11 milhões de dólares por ano, o espaço no teto salarial somado ao espaço que se abriria ao abrir mão do contrato de J.J. Watt comportaria o contrato de Tony Romo sem problemas. Isso faria o time ter um QB de elite com Romo e um reserva seguro com Osweiler, que poderia abrir 15 milhões no salary cap se for cortado em 2018. Ou seja: economicamente falando é possível para Houston.

Em Dallas, a coisa ficaria um pouco complicada. O salário de Watt pesaria 15 milhões no salary cap em 2017, e o Cowboys tem um espaço total de -5 milhões de dólares. Isso mesmo, o Dallas Cowboys está cinco milhões acima do permitido.

Apesar do contrato do Tony Romo ser alto, trocá-lo só abriria cinco milhões de espaço no teto salarial. Isto é, ainda restaria abrir mais 15 milhões para comportar o salário de Watt, sem contar com o salário dos calouros que virão no Draft e as renovações que o time precisa fazer na offseason. Enfim, por esse lado o negócio seria totalmente complicado. O time pode optar pela opção de reestruturar contratos de jogadores atuais do elenco, que abriria espaço no teto salarial sem problemas, mas essa é uma estratégia que prejudica o futuro e eu pessoalmente não gosto. Mas que é possível é.

Ok, Plat, chega de enrolar e responda: É possível mesmo que essa troca aconteça?

A resposta é… difícil — pra não dizer impossível. Por mais que ela seja viável e possa ser boa para os dois lados, o Houston Texans jamais aceitaria uma troca de igual por igual. O Dallas Cowboys precisaria oferecer algo a mais, como uma(s) escolha(s) de Draft, para que ela aconteça.

Além disso, vale lembrar que enquanto Tony Romo teria 36 anos na temporada que vem, J.J. Watt teria 28, idade do auge de muitos jogadores. Por mais que as lesões tenham assombrado o jogador nesses últimos tempos, é difícil crer que isso seria o suficiente para que o Texans se desfizesse de um dos melhores jogadores que estiveram na NFL nesse século.

Viável, a troca é. Boa para os dois lados a troca é. Possível, a troca é.

Agora provável, isso a troca não é.

Gabriel Plat

Editor-Chefe em Blue Star Brasil
Curte NFL por escolha e o Dallas Cowboys por amor. Aprecia a boa música e compartilha outro sofrimento: o Botafogo. Um dos participantes do podcast.